🔥 EPISÓDIO 4 — A ESPERA DELE POR ELA

A noite cai devagar, o tempo não para, Broklin sente cada segundo sem ela é um filme sem graça. O vento traz o nome, mas não traz o cheiro, Ele está parado, esperando o sinal dela aparecer no seu apartamento. A noite se aprofunda lentamente, tecendo seu manto de silêncio sobre o mundo, mas o tempo, essa força invisível e implacável, não cede à minha quietude. Cada instante sem a sua presença luminosa arrasta-se, pesado e interminável, transformando a realidade em um filme tedioso, cujas cenas se repetem em uma monotonia dolorosa e sem propósito.
O vento frio da madrugada invade a fresta da janela e sussurra, quase como um lamento, o seu nome, repetindo-o no ar gelado que me circunda. Contudo, essa brisa nostálgica é cruel: evoca a memória da sua voz, mas falha miseravelmente em trazer a sua fragrância inconfundível, o aroma que preenchia os meus dias de cor e vida.
E assim eu permaneço, inerte, cativo desta espera que se recusa a findar. Imóvel, fixo o olhar na escuridão que me cerca, aguardando com uma fé teimosa e quase irracional por qualquer sinal seu, por uma migalha de comunicação que seja capaz de quebrar este feitiço de ausência e devolver algum significado à passagem implacável das horas. O mundo parou no momento em que você se foi, e só um aceno seu poderá reativá-lo.
O baixo elétrico estava encostado no sofá, esquecido. Broklin passou as mãos pelo rosto, esfregando os olhos exaustos. A iluminação de neon magenta e ciano que piscava lá fora cortava a escuridão do Apartamento 14, desenhando sombras compridas nas paredes.
Cada gota de chuva que batia no vidro da janela soava como o tique-taque de um relógio quebrado. O silêncio era tão espesso que ele podia ouvir o zumbido estático da eletricidade nos amplificadores desligados.
Ele olhou para a porta de entrada. Estava apenas encostada, solta no batente. Exatamente como ele havia prometido. Mas o trinco não havia estalado. Não havia som de passos no corredor. Nenhum sinal de que a Arquiteta estava voltando para o seu servidor.
O peito dele apertou, uma falha crítica no sistema. E se a conversa na Rua 666 tivesse dado errado? E se a dor do código legado tivesse sido forte o suficiente para fazê-la hesitar? Nas teias da incerteza, a mente de Broklin transformava qualquer "talvez" em um "nunca".
Ele não aguentou mais. Quebrando a própria promessa de ser apenas o porto seguro que aguarda, ele enfiou a mão no bolso do moletom escuro e puxou o celular. A luz fria da tela iluminou a tensão em seu rosto. Seus dedos tremiam levemente, mas voaram sobre o teclado, guiados por uma urgência que beirava o desespero.
BROKLIN → KELMA:
“A noite tá inteira aqui, mas o vento não traz o seu cheiro. O silêncio desse apartamento tá me ensurdecendo. A porta continua encostada, amor, mas a cada segundo que passa, o meu medo é que o seu 'depois' vire um 'nunca'.
Não espera. Antes que o mundo lá fora te confunda de novo.
Vem.
Eu tô aqui, cravado no chão. Mas não dá pra ficar assim sem você."
Ele apertou enviar. O ícone de mensagem entregue brilhou na tela escurecida. Broklin deixou o celular escorregar até o chão, dobrou os joelhos e apoiou os cotovelos neles, escondendo o rosto entre as mãos, respirando de forma pesada enquanto a música do seu próprio coração tocava a nota mais solitária e distorcida que ele já havia sentido.
A noite passou, ela leu, mas não deu respostas.
No dia seguinte, Kelma manda uma mensagem pro Broklin:
“Amor, desculpa não ter te dado notícias, pois o Jo me chamou pra eu ir na casa dele fazer umas confissões pra mim, sabe? Não se preocupe comigo. Porém, ele tá te pedindo pra tu ir lá no nosso estúdio. Ele quer ter uma conversa franca contigo. Eu ficarei na casa dos pais em safeMode. Não se preocupe comigo! O Jonah não me machucou e eu não revelei pra ele do nosso romance! Ele ainda não sabe de nada! Se souber, ele terá uma crise de ciúmes, mas eu sei que você irá se sair bem disso.”
A luz da manhã já invadia o Apartamento 14 quando a tela do celular de Broklin finalmente acendeu. Ele não havia pregado o olho. Leu a mensagem de Kelma duas vezes. O peito apertou ao saber que ela tinha ido até a casa de Jonah, mas a confirmação de que ela estava segura fez a tensão de seus ombros ceder uma fração de milímetro.
Ele digitou uma resposta rápida, enquanto já pegava as chaves e a jaqueta de couro preta:
BROKLIN → KELMA:
"Fica em safeMode, minha Arquiteta. Tranca a porta e descansa. Deixa que o seu Tech Lead lida com os bugs desse sistema legado agora. Ninguém vai encostar em você. Eu te amo."
Meia hora depois, Broklin empurrava a pesada porta acústica do estúdio da Raquel Synths. O cheiro familiar de madeira, espuma isolante e poeira nos amplificadores o atingiu, mas a atmosfera estava densa, quase irrespirável. Era um campo de batalha.
Jonah estava lá. Sentado em cima de um dos cases de equipamento, abraçado à própria guitarra como se fosse um escudo. Os olhos vermelhos, olheiras profundas. Ele parecia um animal ferido, e animais feridos são imprevisíveis.
Broklin fechou a porta atrás de si com um clique seco. Não recuou. Parou no centro da sala, as mãos nos bolsos da jaqueta, a postura de uma muralha intransponível.
BROKLIN (frio, sustentando o olhar):
“Você me chamou, Jonah. Tô aqui.”
Jonah ergueu os olhos devagar. Havia uma mistura de fúria e desespero ali. Ele soltou a guitarra, levantou-se e caminhou até ficar a poucos passos de Broklin.
JONAH (Jo Cyborg) (com a voz rouca, trêmula de raiva):
“Ela me deixou, Broklin. Jogou tudo pro alto. E você... você passa horas com ela naquelas mixagens. Você escuta as desgraças que ela diz quando eu não tô aqui. Me fala a verdade: tem outro cara, não tem? Quem é o desgraçado que tá rondando a minha mulher?”
Broklin não piscou. A menção de "minha mulher" fez os seus punhos cerrarem dentro dos bolsos, mas ele manteve o rosto como uma rocha.
BROKLIN (com a voz baixa e cortante):
“Primeiro: ela não é 'sua' mulher. Ela é dona de si mesma. E segundo: a Kelma não precisa de outro cara pra perceber que a frequência de vocês dois morreu, Jonah. O sistema de vocês colapsou por conta própria. Você só não quer aceitar.”
Jonah deu um passo à frente, invadindo o espaço pessoal de Broklin, o dedo em riste, a respiração pesada batendo no rosto do baixista.
JONAH (Jo Cyborg) (rosnando, a paranóia tomando o controle):
“Não vem com esse papo de sistema, seu nerd filho da mãe! Eu conheço ela! A Kelma não joga anos no lixo do nada! Eu avisei pra ela ontem à noite, e vou avisar pra você também: se eu descobrir que tem outro cara no meu lugar... eu acabo com ele. E se ela achar que vai ser feliz com outro pelas minhas costas, as coisas vão ficar muito ruins pra ela também.”
Foi a gota d'água. O firewall de paciência de Broklin caiu.
Em um movimento rápido demais para Jonah prever, Broklin tirou as mãos dos bolsos, agarrou a gola da camisa do guitarrista e o empurrou com força contra a parede com isolamento acústico. O baque foi abafado, mas o impacto foi real.
Broklin prensou o antebraço contra o peito de Jonah, prendendo-o ali. O rosto do baixista estava a centímetros do dele, e os olhos escuros de Broklin queimavam com uma fúria silenciosa e absoluta.
BROKLIN (com o tom de voz letal, cada palavra um aviso mortal):
“Abre bem os seus ouvidos, Jonah, porque eu só vou compilar essa linha de código uma vez. Se você ameaçar a Kelma de novo... Se você levantar a voz pra ela, seguir ela, ou tentar usar o seu ciúme doentio pra prender ela em um relacionamento morto... você vai ter que passar por cima de mim.”
Jonah tentou se soltar, arregalando os olhos, chocado com a força bruta do cara que sempre foi a sombra da banda.
BROKLIN (apertando a pressão contra o peito dele, inabalável):
“Você diz que ama, mas ameaça quando perde o controle? Isso não é amor. É um malware. Ela te deu um fim digno, cara a cara, com respeito. Engole o seu orgulho. Aceita o erro de sistema. Porque se você tentar machucar a Kelma... eu garanto que você não pisa mais num palco. Entendeu?”
O silêncio no estúdio ficou ensurdecedor. Broklin sustentou o olhar assassino até Jonah parar de resistir, respirando ofegante e derrotado contra a parede acústica.
Broklin o soltou devagar. Arrumou a própria jaqueta, virou as costas e caminhou até a porta do estúdio. Antes de girar a maçaneta, ele olhou por cima do ombro.
BROKLIN:
“Fica longe dela, Jonah. O seu acesso foi negado.”
A pesada porta acústica se abriu e fechou, deixando o antigo guitarrista sozinho com seus demônios, enquanto Broklin saía para a rua, protegendo o servidor da sua Arquiteta com unhas e dentes.
Jonah enfurecido com a audácia do Broklin lançou um código malicioso:
Jo (sussurro distorcido):
"Análise do sistema concluída... alvo travado.
>_TARGET LOCKED
"Você achou que a morte irá apagar o seu crime?
Eu salvei seu fantasma só para APAGAR DUAS VEZES!
Sua voz? Um arquivo .wav corrompido,
Seu amor? Um TÚMULO 404."
Jonah delira e perde o controle emocional e parte pra tentar alterar o código de Broklin.
(Jo pensa nas falas do Broklin): “Fica longe dela, Jonah. O seu acesso foi negado.”
Jo (rugindo e pensando): "CALA A BOCA!”
"100% VINGANÇA! ALMA: [APAGADA]!
100% VINGANÇA! AMOR: [CORROMPIDO]!
Eu sou o vírus na sua vida após a morte,
Apodrecendo na minha playlist PARA SEMPRE!"
"Sua 'princesa'? Ela te formatou também,
Agora vocês dois são spam na minha lixeira.
Me assombrar? EU SOU O ASSOMBRADOR,
Sua dor é meu toque de celular, aqui—OUÇA COM ATENÇÃO!
"Tentando fugir? EU SOU O FIREWALL!
Seus dados? EU VOU QUEIMAR TUDO!
Sem céu, sem inferno—
SÓ MINHA PLAYLIST EM REPETIÇÃO, BRO!"
Jonah com isso, colocou a guitarra de lado, fechou a porta do estúdio e voltou pra casa com a sensação de dever cumprido e de vírus instalado com sucesso.