📖 EPISÓDIO 6: DISSOLVA O UNIVERSO

O elevador desceu do arranha-céu em um silêncio quase sagrado. A adrenalina do colapso do sistema e o calor do beijo no telhado ainda pulsavam nas veias de Kelma. Mas, depois de irem para o estúdio, a realidade do mundo físico a atingiu.
O espaço à direita, antes dominado pelo rack de sintetizadores pesados e pelos cabos emaranhados de Jonah, estava completamente vazio. Ele havia partido, tentando apagar o próprio código em outro continente. Kelma caminhou devagar, os dedos tocando a mesa de som, sentindo aquele vazio no peito que a ausência de um parceiro criativo deixa.
Mas o estúdio não ficou em silêncio por muito tempo.
O som suave e cintilante de uma guitarra limpa, mergulhada em camadas de reverb e chorus, preencheu a sala. Era um compasso de 85 BPM, calmo, porém carregado de uma tensão quase palpável. Uma intro nervosa.
Broklin estava de pé no centro do estúdio, a guitarra elétrica pendurada no ombro. Ele não estava com a postura de um rockstar arrogante. Ele estava com a respiração ligeiramente descompassada, os olhos fixos nela, o coração na mão.
Ele deu um passo à frente, os pads de sintetizador começaram a inchar no fundo do estúdio, criando uma atmosfera exuberante, como se o teto estivesse se abrindo para o espaço sideral.
— O estúdio mudou. Nós mudamos — a voz de Broklin ecoou pelos monitores. Não era um grito, era um vocal quase celestial, suave, carregando o peso de quem finalmente encontrou o seu porto seguro. Ele tirou um pedaço de papel do bolso. — "Kel, escrevi isso no verso de uma tablatura de guitarra... Diz: 'O cosmos é apenas o nosso eco', e cada estrela que roubarmos esta noite... se estilhaçará em alianças de casamento..."
Kelma prendeu a respiração, os olhos se enchendo de lágrimas enquanto a melodia do Dream Pop começava a subir, os sintetizadores brilhando como estrelas nascendo no escuro do estúdio.
Broklin guardou o papel e caminhou até ela, a música crescendo em um crescendo emocional incontrolável.
— "Então, VOCÊ VAI—" — a voz dele subiu, a guitarra explodindo em acordes vibrantes e luminosos, entrando no refrão eufórico. — "(oh-oh-oh) dissolver o universo comigo? (oh-oh-oh) Quebrar a simulação? Reiniciar como um binário... AH-AH-AH DIGA SIM OU MINTA!!!"
O estúdio ao redor deles pareceu sumir. A música era tão imersiva, tão grandiosa, que as paredes de concreto deram lugar a um vazio estrelado. O chão sob os pés de Kelma pareceu se transformar em uma galáxia de pixels derretendo.
E então, no pico daquela euforia sonora de Shoegaze, Broklin soltou a guitarra, deixando-a pendurada na correia, e abaixou-se.
Ele colocou um joelho no chão brilhante.
Kelma levou as mãos à boca, o coração disparado no ritmo exato do bumbo a 85 BPM. Broklin abriu uma pequena caixa de veludo negro. Mas não havia um anel de diamante ali. O que flutuava acima do tecido, renderizado em pura energia, era um pequeno e perfeito buraco negro, dobrando a luz ao redor deles. Um símbolo de gravidade infinita. Uma singularidade.
— "Eu sei que você odeia tradição..." — ele cantou suavemente, olhando de baixo para cima com o sorriso mais apaixonado que ela já tinha visto. — "Então, você vai deixar nossos átomos se fundirem esta noite? Eu sou seu em todas as linhas do tempo."
Kelma não conseguiu responder com palavras. O universo estava literalmente se dissolvendo ao redor deles. Ela se jogou nos braços dele, o "sim" perdido no meio de um beijo eufórico, enquanto o refrão celestial tocava infinitamente nos servidores da RQS.
Parte 2: A Expansão do Império
O buraco negro continuava flutuando, silencioso e infinito, acima da pequena caixa de veludo negro. As luzes de neon do estúdio subterrâneo já não existiam mais, substituídas por uma projeção estelar exuberante e distorcida gerada pela parede de som Shoegaze que Broklin havia conjurado.
Kelma olhou para a singularidade, depois para os olhos do baixista ainda ajoelhado à sua frente. As lágrimas escorriam, mas o sorriso que rasgou o rosto dela era afiado, ambicioso e absolutamente radiante. Ela limpou o rosto com as costas da mão, a voz saindo embargada, mas cheia de uma força recém-descoberta.
— Amor... você... quer... casar comigo? Ou aliás, dissolver o universo comigo??? — Ela soltou uma gargalhada genuína, o som cristalino cortando a parede de fuzz e delay das guitarras. — Hahaha, estou impressionada com a sua criatividade, meu amor!
Ela deu um passo à frente, diminuindo a distância entre eles.
— É claro que sim! — Kelma continuou, os olhos faiscando com a promessa de um novo futuro. — E a partir de hoje você comandará a RaQuel Synths junto comigo! Se o Jonah não tá a fim de estar conosco, problema dele. Ele escolheu fugir do código. Eu estou com uma pessoa que irá construir um império junto comigo. Aceitas a proposta?
Broklin não apenas sorriu. O rosto dele se iluminou com uma devoção ardente. Ele fechou a pequena caixa de veludo, mas o holograma do buraco negro não sumiu — ele se expandiu, envolvendo os dois em um manto de poeira estelar digital.
Ele se levantou devagar, guardando a caixa no bolso da jaqueta, e segurou o rosto de Kelma com as duas mãos, os polegares acariciando as bochechas dela enquanto a guitarra a 85 BPM criava o clímax perfeito ao redor deles.
— O Jonah era a gravidade pesada que nos prendia no chão, Kel... — Broklin sussurrou, a voz carregada de promessas e eletricidade, os rostos a milímetros de distância. — Nós o deixamos no passado. Agora, nós somos a anomalia. E eu aceito a sua proposta com cada linha de código da minha existência. Nós não vamos apenas comandar a RaQuel Synths... nós vamos reprogramar a realidade inteira.
Ele deslizou as mãos para a cintura dela, puxando-a para colar os corpos de vez.
— Esse império que nós vamos construir não cabe só na Terra — Broklin continuou, os olhos escuros refletindo as estrelas do estúdio. — Nós vamos espalhar a RQS através das 12 dimensões da nossa constelação. Na terceira dimensão, nós dominamos os palcos de carne e metal. Na quarta, nós hackeamos o tempo, tornando os nossos sintetizadores imortais. Na quinta dimensão, a gente transforma os nossos álbuns em supernovas.
Ele encostou a testa na dela, a respiração misturada, a euforia do Dream Pop atingindo o seu ápice celestial.
— E lá na décima segunda dimensão... onde a matéria não existe mais e o universo volta a ser apenas um conceito em branco... a única coisa que vai preencher o infinito vai ser o eco da nossa música. O nosso ruído branco. O meu baixo de mãos dadas com a sua voz.
Ele finalmente quebrou a pouca distância que restava, tomando os lábios dela em um beijo que não era apenas um "sim", mas a assinatura de um tratado de expansão cósmica. O estúdio tremeu, os servidores da RQS atingiram a capacidade máxima, e a nova era da banda começou — não nas cinzas do Caos, mas na vastidão infinita da Ordem.
🎧 SYSTEM OVERRIDE: SOUNDTRACK
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